quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Como ensinar noções de segurança para uma criança?

O sonho de qualquer pai é que o filho viva com segurança. A preocupação é justificada quando
observamos os dados sobre a infância no Brasil. Segundo a ONG Criança Segura, os acidentes
domésticos são a principal causa de morte de crianças entre 1 e 14 anos. Já as estatísticas da
Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas mostram que são mais de 50
mil crianças e adolescentes desaparecidos no Brasil,sendo muitos deles sequestrados.
Mesmo sendo pequenas, as crianças conseguem assimilar algumas noções de segurança
quando ensinadas da maneira correta e em uma linguagem compreensível para a idade delas.
Conversamos com especialistas para descobrir as melhores dicas.
1. A responsabilidade é sua
Um alerta importante: ensinar essas noções ao filho não tira a sua responsabilidade como pai de
mantê-lo seguro. Ao saber onde estão os perigos, ele poderá de fato ser mais cuidadoso, mas
isso não é uma garantia contra os acidentes.
2. Como falar com a criança
A melhor maneira de ensinar noções de segurança a uma criança pequena é usar exemplos que
tenham coerência com o dia a dia dela. Ao explicar, por exemplo, que ela não deve aceitar balas
de um desconhecido, diga que ela poderá ter uma dor de barriga horrível. A ideia é informar, e
não amedrontar a criança.
Foi essa a maneira escolhida pela escritora Aline Angeli, autora de O Livro das Emergências - O
Que Toda Criança Esperta Precisa Saber Sobre Segurança. "A maioria das crianças compreende
a noção de que o perigo se esconde em algumas situações, e acredito que vale a pena, sim,
apresentar conceitos como o de acidentes caseiros e problemas com estranhos para elas o
quanto antes. É preciso treinar com os pequenos o desfecho para situações de emergência,
como saber o número do telefone de casa caso se percam na rua", diz Aline.
As explicações devem ser dadas por inteiro ("Se você cair da janela, vai se machucar, terá dodóis
e não poderá mais ficar com o papai e a mamãe"). Do contrário, corre-se o risco de a criança ficar
curiosa sobre o desfecho e fazer o que não pode só para saber o que acontece. E dê um tempo
para ela absorver a explicação. Como tudo o que se relaciona à educação infantil, o segredo é a
repetição. Quando algo ocorrer, não grite, não berre. Converse. A criança tem de sentir que há
uma parceria entre vocês. "Se ficar com medo e perder a confiança nos pais, ela nunca mais vai
contar o que fez. Tem de haver uma cumplicidade para que os filhos falem sobre o que
aconteceu", explica Glauce Assunção, psicóloga e neuropsicóloga do Hospital São
Camilo/Santana, em São Paulo. Equilibre a bronca para manter o canal de comunicação aberto.
3. Como lidar com pessoas estranhas
Mesmo crianças que costumam "estranhar" quem não conhecem vão seguir um desconhecido se
ele oferecer um brinquedo ou um doce. Crianças tendem a achar que adultos são sinônimos de
segurança. Os pais precisam explicar, de forma equilibrada, que nem todo mundo é legal, que
algumas pessoas são "bobas", podem bater, deixar a criança sem comida e por aí vai. Procure
ser o mais claro possível. Não fale em bicho-papão e homem-do-saco.
Diga que se trata de um homem ou mulher ruins que podem levá-la para longe da mamãe. E,
mesmo em situações nas quais é a mãe de um amiguinho ou uma tia que convida para sair, é
necessário que ele avise a mamãe ou o papai. Não é necessário incutir medo na criança, mas ela
deve saber que não é bom sair sem avisar os pais.
Na lista das explicações a respeito do contato com pessoas estranhas, entra também um alerta
sobre ser tocado por elas. O assunto é bem delicado, mas necessário. Vale mostrar que um
carinho na cabeça é aceitável, mas que, no restante do corpo, é melhor que apenas papai e
mamãe tenham acesso. Fale isso de forma tranquila, do mesmo modo que explica sobre o perigo
de dedos na tomada. Crianças pequenas não têm malícia e vão encarar a explicação de forma
mais prática do que você imagina.
Oriente seu filho para gritar bem alto se um estranho tentar levá-lo à força. A melhor frase para
usar é "Esse não é o meu pai, socorro!". Ele deve fazer isso mesmo que o tal adulto peça para
que fique quietinho. É importante que os pais sempre tenham a confiança da criança para ensinar
que, se alguém ameaçá-la dizendo “não conte isso para os seus pais”, ela faça exatamente o
contrário e nunca guarde segredos.
4. O que fazer quando se perder
Perder uma criança em locais públicos é muito mais comum do que se imagina. Não adianta ficar
ameaçando o pequeno a nunca mais sair de casa caso não pare quieto. O melhor é prevenir. A
partir de 3 anos de idade, dependendo do desenvolvimento de seu filho, ele já conseguirá decorar
o número do telefone de casa. Treine bastante. Ele vai adorar e se sentir importante. Antes disso,
crianças devem sair sempre com um cartãozinho com o nome e telefone dos pais. Mostre que o
cartão estará no bolso da roupa e, caso ela se perca, deve mostrá-lo a alguém.
Mas quem? Sempre oriente seu filho a procurar: a mãe ou pai de outra criança, um
guarda/policial/segurança (é fácil para ela identificar o uniforme) ou alguém que trabalhe dentro
de uma loja ou restaurante – de preferência no caixa. Diga que essas pessoas poderão ajudá-la a
encontrar você novamente. Também é importante pedir que ela não saia da área onde se perdeu,
pois você estará procurando por ali.
Outra dica bacana, dependendo da capacidade de entendimento da criança, é combinar um local
ao qual ela deve ir caso se perca. Pode ser sua loja de fast-food preferida ou aquela doceria onde
existe um sorvete delicioso – são informações visuais que a criança é capaz de guardar por
associação.
Na rua, vale ressaltar o perigo dos carros e orientar para que fique na calçada. Ou, melhor ainda,
que entre em um local como uma loja, padaria, prédio, onde ficará mais segura e poderá pedir
auxílio. Já na praia, o melhor é explicar o perigo de tentar entrar na água caso se veja sozinha.
Fale que, apesar de bonito, o mar pode ser bem chato com as crianças, pois pode tentar arrastálas
para o fundo e fazer muitos dodóis. Avise que isso acontece também com quem sabe nadar.
Por isso, ele deve ficar na areia, perto do lugar onde viu os pais pela última vez. E deve procurar
ajuda com outras famílias que estiverem por perto. Ou, se a praia tiver pontos de salva-vidas e
informações, geralmente sinalizados com bandeiras bem vistosas, ensine-a a ir até lá.
Finalize as explicações mostrando que o melhor mesmo é ficar sempre ao lado dos pais para
nada disso acontecer e estragar o passeio. E, caso a criança se perca, quando achá-la, segure a
ansiedade, dê bronca, mas não grite. Respire, mostre o quanto ficou preocupado e, caso ela
tenha seguido algumas das suas orientações, elogie o seu desempenho. Mas deixe claro que
aquilo foi ruim e não deve acontecer novamente.
5. Cuidados que elas devem ter na rua
Perder-se na multidão enquanto anda na rua não é o único problema que pode ocorrer com
crianças. Infelizmente, os atropelamentos são a segunda causa de morte infantil no Brasil,
segundo a ONG Criança Segura. A explicação é simples: até os 10 anos, o pequeno não tem
noção de tempo nem de espaço e não desenvolveu a visão periférica. Fica confuso. Quando vê
um carro e um caminhão vindo em sua direção, por exemplo, sempre achará que o último, em
razão do tamanho, está mais perto. Ela vai ter de crescer e praticar muito para fazer tudo isso
sozinha. Até lá, só deve andar na rua acompanhada! E de mãos dadas com o adulto, que deve
segurá-la de preferência pelo pulso – mais difícil de escorregar caso ela resolva sair correndo.
Hoje em dia, as calçadas também andam perigosas. Carros entram e saem a todo momento. Por
isso, a mão dada também vale para a calçada.
6. Como se comportar em parques e playgrounds
Os perigos aqui são dois. Primeiro, é bom a criança ter a noção de que brinquedos quebrados,
podem machucar. A responsabilidade de verificar o estado de manutenção do parque é dos pais,
mas a criança pode ajudar avisando quando notar algum problema. Mostre também que cada
brinquedo funciona de um jeito, e será legal se isso for respeitado. A ideia não é cercear a
criança, mas orientá-la e diminuir o risco de acidentes.
O ideal é nunca deixar a criança sozinha nesses lugares, mesmo que tenha um grupinho de mães
por ali, já que nem sempre é possível prever quando elas sairão do lugar. Explique para seu filho
que, caso você não esteja por perto, ele não deve sair do playground. Não pode sair do prédio e
não deve ir ao apartamento de outra pessoa sem avisar você. Ele tem de fazer isso mesmo que
os pais do amigo digam que está tudo bem.
7. As armadilhas dentro de casa
Uma casa pode ser perigosa para uma criança pequena. Há móveis altos, cantos de mesa,
tomadas, acessórios de cozinha, produtos de limpeza, remédios, pisos escorregadios, janelas
sem rede... O jeito é ir mostrando como cada coisa, se usada da forma errada, pode causar
dodói. E explique tudo, com começo, meio e fim.
Dependendo da idade do seu filho, não adianta, por exemplo, simplesmente guardar os remédios
em lugares altos. Ele ficará curioso e arrastará uma cadeira para alcançar. Diga que, à medida
que ele for crescendo, aprenderá a lidar melhor com tudo aquilo e os riscos de perigo irão
diminuir – mas não acabar. Aproveite seus próprios acidentes, como um corte na hora de picar
legumes, para exemplificar que aquilo pode doer e não é legal. Com o tempo e muita explicação,
elas podem ficar um pouco mais cuidadosas.
Uma ótima ideia é ensinar o número de telefone da polícia para a criança. O 190 é um número
fácil de decorar e achar no teclado. Explique que se trata de algo muito sério, um telefone
especial que não deve ser usado à toa. Mas tem de ser discado se: um adulto pedir, mamãe,
papai ou quem estiver cuidando dele desmaiar, pegar fogo em algum lugar, um desconhecido
tentar entrar na casa. Se conseguir dizer o endereço para quem atender, melhor ainda. Acredite:
crianças e adultos já foram salvos por essa pequena atitude.

Autor: Zuleid Dantas Linhares Mattar
Fonte do artigo:Pediatra Online (www.pediatraonline.com.br)

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